David Mendes

A história? A história muda a cada objeto desenterrado?
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Parem de me olhar. Eu não quero mais ser visto por vocês! Essa atenção me é cobrada na alma. E tudo o que é subtraído da alma tem como fiel companheira a glória duma eternidade.
Parem de me olhar, eu vos peço. Pois a vontade dos vossos olhos cria em mim uma dolorosa realidade. A expectativa alheia nunca é tão boa para o cão que ladra. É que a mandíbula que sofre o impacto do remorso jamais será a do dono que incita ao ataque.
Parem, olhos tracejos… que de hora em vez direcionam a mim desejos egoísticos; que de polpa em vento arqueiam as velas da ignorância forjadas no bel-prazer da admiração opaca de um coração com capa.
Olhos vorazes… parem! Parem! Parem! Parem, porque a saudade ao redor não é aquela que apóia sobre meus ombros o peso da dó… da auto-dó.
Fechem-se, olhos malignos… olhos que, até aqui, me vigiaram noite e dia, sem guia nem vinha; nem vinho das vinhas que vinha furtar-me sempre no gole amargo sobre o mármore gelado. Se fosse sob, agora, subiria eu à aurora.
Fechem-se, olhos castanhos; olhos que, na escuridão, não se destacam do negro profundo que aprofunda a alma que pró-funda a calma. Eis a Profunda Paz do Ser que é só Ser, nada mais.
Parem de me olhar, eu imploro! Fechem-se agora, porque a saudade do olhar infante inflama os sonhos não sonhados… ignorados pelo acaso do pouco caso; porque inflama e clama na chama que ama quem canta. E quem canta é quem mais me encanta, sempre quando a água cai e raspa a casca ázima que se esvai e vai… e vai… e foi.
Olhos travessos de criança sem preço. Que apreço! Que afresco sistino que retrata o probo toque com o pai, e com a mãe e com os irmãos… e com um cão que a mandíbula só se abriu para salivar pelo alimento que supre a alma: o amor sem dor, sem cor, sem flor… apenas o amor, puro, como aquele que habita recluso no escuro. Aquele, sim, é puro. Tão puro que não o damos ao mundo, porque aos olhos de um adulto o mundo é impuro. Aos olhos de um adulto que outrora fora uma criança que tornou-se adulterada pelos adúlteros, o mundo é injusto, insano e impuro.
Ah… lixoso mundo, tão moribundo, poço sem fundo. Cadê o meu mundo? Limpo estaria, mas morreria em correria com tais humanos tão desumanos. Após anos, cadê meu mundo? Talvez no fundo, por um segundo.
Ah… olhos lixosos, tão imbuídos num riso caído. Cadê meu mundo? Onde foi parar meu reino de fadas e magos, com unicórnios encantados e grilos falantes? Fechem-se, olhos caídos de anjo maldito. Olhos velhos, enrugados pelo ácido tempo do áspero templo… fechem-se agora. Pois o espelho que lhe dá vida, suplica por aquele que brinca. Culturas, religiões, medos e apegos, aqui não é mais vossa morada.
Olhos mortazes, cessem o fitar do teu próprio dono. Careçam da vida que os animam. Aceitem o incontestável… o palpável: a criança que canta, imanta e encanta. Pois sou eu, e apenas eu, a minha eternidade e o meu espelho.

"David Mendes"

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